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Oct 26, 2025
11 min read

Minimalismo Digital II

Uma revisão do aprendizado

Introdução

Às vezes é saudável admitir a derrota. Após um experimento de declutter bem-sucedido, se com o tempo você afrouxa algumas regras, velhos hábitos ruins podem retornar em nome da conveniência.

Meus pontos fracos são Reddit e YouTube, especificamente esses dois por serem ótimas distrações disfarçadas de entretenimento que gera conhecimento. Eu tenho o péssimo hábito de tentar convencer a todos — a mim mesmo também — de que possuo um conjunto produtivo de entretenimentos: os canais no YouTube trazem conhecimento sobre computação, tecnologia, ciência, produtividade etc. YouTube e Reddit são um prato cheio para quem opta por deixar distrações disfarçadas de conhecimento se esgueirarem aos pouquinhos na rotina, até que num belo dia você está lá, sentado no sofá, segurando um prato de comida esfriando com uma mão e com a outra, segurando o controle da TV, procurando freneticamente o vídeo com a temática e a duração certas que combinem com o jantar entregue via Ifood.

Se você nunca ouviu falar em Minimalismo Digital, seja pelo livro do Cal Newport, seja pelo meu texto ou qualquer outra fonte sobre o tema, talvez sinta que a ideia de abandonar as redes sociais seja muito radical — ou, como o cara do canal “easy, actually” fala no vídeo sobre vício em YouTube: “o YouTube não parece rede social porque parece educacional”. Na realidade, se você observar os vídeos mostrados na Home ou na Barra de Sugestões, vai facilmente concluir que nada ali é conhecimento de verdade. É quase como tentar ficar mais inteligente enviando seu personagem no The Sims pra escola.


Após topar com um episódio recente chamado This is your brain on phones do podcast do Cal Newport, o Deep Questions, me peguei refletindo sobre quantas das coisas que aprendi no livro ainda eram presentes na rotina. É surpreendente perceber que o fato de que momentos de devaneios terem se tornado raros significa que tempo demais se passou. Assim que terminei de reler o capítulo que ensina o processo de declutter, senti a necessidade de reaplicar os 30 dias sem redes sociais para desafogar o cérebro novamente e ver o que acontece.

Se tudo ocorrer conforme o esperado, vou relatando aqui neste Jardim Digital como será a experiência.


O que mudou desde a primeira experiência

O post começou falando que o YouTube se disfarça de rede social educativa. Eu, me achando o bastião do minimalismo, livre de distrações desnecessárias, que seguia e acompanhava apenas 5-6 criadores de conteúdo (idôneos e comprometidos com a saúde mental dos seus seguidores e a vida plena fora das redes), me vi dono de uma lista de mais de 80 canais seguidos. Agora tem zero.

E é sempre pelas beiradas, sempre se esqueirando pelas exceções. O Instagram, por exemplo, geralmente fica desinstalado na maior parte do tempo, exceto quando reúno fotos para postar um dump. Mas, se por um acaso, eu enrolo para postar, ele permanece instalado, meio que como um lembrete constante dessa tarefa. Como cabeça vazia é oficina do Mark Zuckerberg, o veneno anti-tédio é sempre aquela abridinha de 5 minutos no app para conferir o que está acontecendo na vida dos outros.

Como o Cal Newport bem fala no livro, se você quer realmente saber como alguém está, é muito mais valioso telefonar para essa pessoa, marcar um almoço ou jantar, visitá-la ou chamá-la para te visitar. Ter à disposição o meio de comunicação mais simples não necessariamente te faz ter em mãos o meio de comunicação mais eficaz. Do ponto de vista da qualidade das relações humanas mesmo. Inclusive, se estamos falando de redes sociais, eu aposto um sorvete de flocos que se houver um estudo sobre o tema, ele provavelmente vai apontar uma relação inversamente proporcional entre essas duas coisas.


Quais são nossos objetivos imediatos principais? Desde que me graduei, o meu tem sido sentir prazer por leitura não técnica, tentar me interessar por ficção; mas, sobretudo — e antes disso —, retomar o hábito de ler. É sempre um desafio começar a ler porque sempre tem alguma discussão mais interessante no Reddit, um vídeo no YouTube que será diferente de todos os outros, um criador de conteúdo que não faz clickbait de olhos esbugalhados na thumb e que certamente merece que eu aposte nele as fichas do meu tempo. O que é que está servindo de barreira entre o seu tempo e aquilo que você deseja conquistar? Se meu objetivo é ler mais, eu preciso dar um passo atrás para poder enxergar, para que só assim seja possível tirar da frente tudo aquilo que me tira do foco do que importa.

Eu fico repetindo a ideia de focar nas coisas que importam, e não acredito que seja por falta de um vocabulário mais extenso. É que é uma ideia-chave nessa filosofia.


Diário

Dia 3: Terminei um livro. A bem da verdade, já estava na última hora de leitura, então dei um gás. Foi uma releitura do “História sua vida e outros contos” do Ted Chiang. Agora estou decidindo se começo o livro sobre o Flow (a teoria do Mihaly Csikszentmihalyi, não alguma biografia do Igor 3K) ou se retomo o “Language Truth and Logic” (A.J. Ayer). Ontem também comprei uma coletânea de contos do Asimov porque a minha namorada disse que nunca tinha lido o conto “A Última Pergunta”.

Dia 4: até ontem eu ainda estava abrindo o YouTube sob o pretexto de que os vídeos salvos no “Assistir Depois” eram importantes para mim. Decidi não abrir essa exceção. A única exceção possível para mim é usar o YouTube quando precisar conferir algum tutorial relacionado ao meu trabalho como desenvolvedor de software.

Dia 5: organizei as listas de compras e rememorei a quantidade bizarra de livros que quero E VOU ler. Escolhi ler o “Flow: A psicologia do alto desempenho e da felicidade” do Mihaly C.

Dia 6: estou na semana 5/6 de um programa de corrida, que segue mais ou menos a filosofia do C25K (From Couch to 5K). Hoje eu corri 5 quilômetros (2 x 2.5km). Se tudo correr bem, dia 16/nov eu vou me “graduar”, que é correr 5km ininterruptos.

Já faz um tempo que não tenho mais problemas com foco no trabalho. Realmente não sei precisar quando começou; se foi quando comecei a trabalhar no projeto no qual estou agora — que é muito importante para a minha carreira; ou se foi quando removi as redes sociais do celular. Só sei que hoje em dia, celular e computador são tão chatos que mal me interesso por saber o que está acontecendo para além dos assuntos profissionais que lido diariamente.

Estou sentindo falta é do meu videogame. Estou acostumado a, todo dia, dar pelo menos uma voltinha em Nürburgring ou em Interlagos no Gran Turismo 7. Recentemente recomecei Shadow Tactics e também queria voltar a jogar Diablo IV.

Dia 7: hoje, na falta do que fazer, sentei pra ler depois do trabalho. E lá passei algumas horas. É tão curioso fazer isso novamente em vez de automaticamente abrir qualquer coisa no YouTube pra passar o tempo. Pra passar a vida.

É muito doido não ter rede social no celular. Você não sabe como se distrair. Você desbloqueia o celular e se pergunta “e agora, o que eu faço aqui?”.

Dia 14: continuo sentindo falta de jogar videogame. Acho que ao final vou criar alguma regra que se relacione a foco, do tipo “ter apenas 2-3 jogos instalados por vez”. Quanto ao tempo gasto jogando videogame, não costuma ser muito. Sempre fico entediado após 1-2 horas jogando.

Aqui em casa estamos usando parte do tempo ocioso para assistir filmes ruins de Natal — uma tradição anual. Também estamos relendo juntos o Guia do Mochileiro da Galáxia. Diferentemente da outra vez, não senti nenhuma vontade de encostar na minha guitarra empoeirada, mesmo tendo um setup perfeito para tocar guitarra em apartamentos, que é um laptop, headphones cabeados e uma interface de áudio.

Dia 15: sabadão com o tempo querendo virar pra chuva e eu em casa sem nada pra fazer. Joguei videogame? Não, eu almocei em pé, com o prato apoiado na pia da cozinha. Depois lavei louça e fui ler. Depois de ler, dormi. Depois de acordar, fui estudar.

Eu mal me reconheço, fazendo coisas espontâneas, sem nenhum objetivo específico em mente.

Dia 22: sinto que tem sido um mês único por aqui — e por outras questões pessoais que não pertencem ao declutter.

Dia 30: é impossível saber quais das coisas novas que me aconteceram foram resultado direto do declutter ou não; só gostaria de mencionar que corri 5km ininterruptos pela primeira vez, e num evento de corrida oficial, com medalha, tempo oficial etc. Coincidentemente ou não, a partir de hoje me considero oficialmente um corredor amador.


Conclusão e reflexões finais

O dia 0 pós-declutter não é o final da experiência do Minimalismo Digital, é o dia 0 para vários novos hábitos, somados à consequente eliminação permanente de outros.

  • Gostaria de ter lido muito mais. Consegui ler apenas 40% de um livro que eu considero médio-grande, mas que se eu tivesse me organizado melhor, teria terminado de ler. Isso vai se tornar uma meta a partir de agora

Instagram

Não senti falta do Instagram, então nada muda na política em vigor: instalo o app uma vez por mês, posto um dump e respondo mensagens. Desinstalo novamente. Por ora é o bastante.

YouTube

Ao longo do declutter pensei em muitas formas de como voltar ao YouTube sem causar retrocessos. Quando os 30 dias acabaram, ao abrir um vídeo qualquer, percebi que estava mais sensível à minha ansiedade e à minha impaciência, que aumentaram imediatamente. Até os batimentos cardíacos se elevaram, inexplicavelmente. Decidi que não posso voltar, e nem é apenas por isso.

Pensar um pouco mais na natureza do YouTube te permite conceber a distinção entre informar-se e saber. No contexto que estamos adotando aqui, informação é qualquer fato sobre o mundo cujo qual você conhece e do qual você se recorda. Estar informado, portanto, é lembrar-se de parte dos fatos sobre o mundo aos quais você foi exposto.

A definição de saber se baseia na definição de informação, porém ambas jamais devem ser confundidas uma com a outra, porque sabedoria é a capacidade de interconectar informações de categorias diferentes a fim de que seja produzido um entendimento novo a respeito de determinadas coisas do mundo.

O que quero dizer aqui é que estar a par (estar informado) é diferente de saber, porque enquanto a aquisição de informação exige apenas o ato passivo de receber dados trazidos por determinada mídia, o saber (conhecer) requer a ação da reflexão, do estudo, do confronto de ideias — consigo próprio ou com outras pessoas —, da compreensão de novos fatos, ou da apresentação de novos pontos de vista acerta de fatos já conhecidos.

Todos os vídeos do YouTube foram criados para te informar, e informação é entretenimento. O problema é que o Jornal Nacional também é. Para de fato aprender, saber, conhecer coisas novas, é necessário que o nosso cérebro se desvencilhe de qualquer artifício arquitetado para prender nossa atenção em atividades passivas. Aprender é uma atividade que demanda nossa total energia para que sejamos capazes de superar o incômodo que é fazer novas associações entre informações até então distintas. Esse incômodo é a “dor de aprender1.

Ultimamente tomei a decisão de me informar menos para dar mais espaço à atividade de saber mais sobre as coisas que me interessam. Por esse motivo, o YouTube não fará parte da minha vida de minimalista digital, pós-declutter.


Bibliografia, Referências e Notas de Rodapé

Footnotes

  1. https://akitaonrails.com/2019/10/23/akitando-65-a-dor-de-aprender-que-cursos-livros/