O incognoscível é um argumento em favor da existência de deuses. O único deus que pode existir é um deus que seja incognoscível.
Dia desses, minha namorada me explicou por que a dieta vegana restringe o consumo do mel. Embora pareça óbvia a noção de que a restrição acontece porque “mel vem da abelha”, o alimento não vem exatamente da carne de abelha, e sim do seu trabalho.
Longe de mim discutir lógica com veganos, até porque é cruel por si só subtrairmos o fruto do trabalho incansável das abelhas-operárias em favor de uma ou outra dieta — e fazemos mesmo assim (e eu adoro mel). O interessante aqui é perceber que, a partir da invenção da apicultura, as abelhas passaram a ser operárias não de uma Abelha-Rainha, e sim de um sistema econômico. E tudo isso sem sua ciência ou sua anuência.
Abelhas não sabem o que é apicultura ou o que é sistema econômico, não porque não se interessam, e sim porque isso está para além de sua capacidade de pensar tais coisas.
Quais seres são capazes de saber que não sabem o que desconhecem?
É uma reflexão sobre deus. Quem seria o deus do qual todas as abelhas são ateias? Ora, a natureza de um deus necessita de algumas premissas: a primeira é existir; a segunda é agir direta ou indiretamente no destino de outro ser. Minha hipótese é a de adicionar uma premissa adicional: a de não ser pensável.
Se existe um ser com volição, responsável por definir o destino da vida de uma abelha-operária sem que ela se dê conta disso, esse ser não apenas deve ser considerado um deus em relação a ela, mas também um deus que está para além do pensamento dela. E, diferentemente dos deuses locais — que criamos para atenuar nossa incapacidade de suportar a realidade de que o Universo não se importa conosco — a existência desse deus é atestável por nós, mas não pelas abelhas. Isso significa que o fato delas não serem capazes de pensar nele não significa que ele não seja pensável ou que não exista. É uma hierarquia de classes de deuses: no Nível 0 (zero) há os deuses que criamos para que os adoremos e peçamos por suas bênçãos. No Nível 1 habitam os deuses que existem porque pode-se supor que existem, independentemente da nossa capacidade de pensar neles — justamente porque somos capazes de pensar neles.
Refletindo sobre o advento da consciência, é possível afirmar sem abandonar a racionalidade que, como diz a citação do filósofo Alan Watts, no final do disco Language1, do Contortionist, o despertar da consciência da consciência (i.e., a definição de Homo sapiens sapiens) é o Universo tornando-se consciente de si próprio. O problema dessa interpretação é que ela encontra apoio em autores considerados… místicos:
In other words, the so-called involuntary circulation of your blood is one continuous process with the stars shining. If you find out it’s you who circulates your blood, you will at the same moment find out that you are shining the sun. Because your physical organism is one continuous process with everything else that’s going on, just as the waves are continuous with the ocean. Your body is continuous with the total energy system of the cosmos, and it’s all you. Only you’re playing the game that you’re only this bit of it.
Uma outra citação similar é uma fala do autor de autoajuda Eckhart Tolle2:
You are not IN the universe, you ARE the universe, an intrinsic part of it. Ultimately you are not a person, but a focal point where the universe is becoming conscious of itself. What an amazing miracle.
O único exemplo discrepante que conheço é a frase de Carl Sagan: “somos poeira de estrelas”. Curiosamente, sua conclusão é próxima à de Tolle 3:
The cosmos is within us. We are made of star-stuff. We are a way for the cosmos to know itself.
A proto-hipótese do Deus das Abelhas é similar a essa ideia. Abelhas-operárias trabalhando sem saber para quem estão trabalhando.
As duas ideias se aproximam na medida em que é possível extrapolar a ideia de um deus que de fato existe, posto que dita toda a mecânica da vida de uma abelha-operária sem que ela se dê conta. Podemos chamá-lo de Apicultura, de Ação Antrópica, do que quisermos; o fato é que, embora exista, sua existência é incognoscível, ou seja, impossível de ser percebida pela abelha-operária.
Podemos extrapolar a estrutura de níveis de cognoscibilidade e da hierarquia de níveis de deuses e supor que, para além da nossa própria capacidade de pensar, existam deuses que para nós são invisíveis.
Se uma nave extraterrestre pousasse num apiário e saudasse ambos apicultor e abelha-operária, certamente o apicultor ficaria estarrecido, enquanto a abelha provavelmente continuaria seguindo sua rotina diária. Se ambos fossem abduzidos e levados para o planeta natal da nave alienígena e, coincidentemente, o planeta recebesse uma inesperada visita de seres alienígenas em relação aos nossos alienígenas, o que nos garante que o apicultor seria capaz de sequer se dar conta dessa presença dois níveis acima? O exemplo é vago e cabe refinamento. A ideia aqui é estabelecer uma proposta de hierarquização de existências baseada na capacidade física de conhecer que cada espécie possui.
Se a proposta de hierarquização se mantiver em pé, podemos tentar supor a existência dos deuses de nível 1 inferindo que, dado que nossa cognição também possui um teto daquilo que é possível ser pensado, não é impossível que existam coisas para nós indetectáveis. Poder observar esse limite do cognoscível tanto em seres humanos quanto em abelhas-operárias é importante porque nos permite fazer as extrapolações apresentadas sem apelar para magia e misticismo.
E o que seria a magia senão nosso desconhecimento do que seja a Natureza?4 Se deixarmos de lado os deuses locais que criamos para amenizar a nossa incapacidade de suportar um Universo antigo o suficiente para que todas as explicações de todos os fatos que já aconteceram ou acontecerão sejam completa e absolutamente aleatórios, existe uma classe de deuses muito mais interessantes, que são os deuses incognoscíveis. Eles nada têm a ver com a salvação das nossas almas, a felicidade ou o destino. O fato de ser impossível pensar na existência deles atesta a existência deles em si. Basta lembrarmo-nos que a mera ideia da existência do apicultor é tão absolutamente distante da compreensão da abelha-operária que é possível afirmar que ele não só seria um deus com relação a ela, mas também um deus não compreensível e não pensável, ou seja, incognoscível.
Referências e Notas de Rodapé
Footnotes
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THE PARABLE. Intérprete: The Contortionist. In: LANGUAGE. Intérprete: The Contortionist. [S. l.]: eOne Music, 2014. Faixa 9. Contém trecho de palestra de Alan Watts. Disponível em: https://thecontortionistband.bandcamp.com/track/the-parable. Acesso em: 4 out. 2026. ↩
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TOLLE, Eckhart. A new earth: awakening to your life’s purpose. New York: Dutton, 2005. ↩
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COSMOS: a personal voyage. Episódio 1: The shores of the cosmic ocean. Apresentação: Carl Sagan. Los Angeles: KCET; PBS, 28 set. 1980. ↩
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ANTICAST 160: sobre magia e demônios. [S. l.]: Anticast, [20–]. Podcast. Disponível em: https://soundcloud.com/anticastdesign/anticast-160-sobre-magia-e-demonios. Acesso em: 7 out. 2026. ↩